Risco de Contágio das Atividades Econômicas, Perfil dos Trabalhadores e a Pandemia de COVID-19: Diferenciais por Sexo, Cor e Idade

A humanidade adentra a década de 2020 sendo assolada pela pandemia de Coronavirus Disease 2019 – COVID-19, doença nova e altamente contagiosa, que tem imposto uma conjuntura socioeconômica sem paralelos na história recente.

Neste contexto, o ambiente de trabalho, e não apenas nas funções afeitas a área da saúde, tem sido foco de disseminação da doença, a despeito das medidas de biossegurança adotadas (BHOPAL; BHOPAL, 2020; WENHAM; SMITH; MORGAN, 2020). Assim, para que se tenha respostas adequadas à gravidade do momento é imperativo o entendimento da intensidade da doença por características demográficas e de atividade econômica desempenhada.

Aproveitando que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o Ministério da Saúde, foi o primeiro do mundo a realizar um levantamento amostral de base domiciliar por meio de entrevistas telefônicas durante a pandemia – a PNAD COVID19 – que contempla informações demográficas, sobre o mercado de trabalho e sintomas associados à síndrome gripal, explorou-se a relação entre mercado de trabalho e contágio.

Por meio da identificação do perfil dos trabalhadores brasileiros, considerando uma tríade – alto, médio e baixo – de risco de contágio da atividade laboral, elaborada com base na classificação de Lima, Costa e Souza (2020), bem como o cotejamento desse perfil com o de contaminados e de mortes por COVID-19, espera-se contribuir para o entendimento dos diferenciais de sexo, cor e idade na contaminação e morte por COVID-19.

Cabe destacar que os mesmos domicílios são entrevistados todos os meses (amostra fixa) e, como grande parte das pessoas se contamina uma vez, foram considerados os primeiros meses disponíveis de dados. Na sequência são destacados alguns resultados., mas para mais detalhes: Acesse o texto completo.

A figura abaixo traz a proporção de pessoas que declararam ter sentido algum sintoma de síndrome gripal na PNAD COVID19 nos meses de maio, junho e julho para as regiões do país. Nota-se, além dos diferenciais regionais, a queda generalizada da proporção dos que declararam sintomas de síndrome gripal ao longo do período, em parte decorrente da amostra fixa.

Proporção das pessoas que declararam ter sentido algum sintoma de síndrome gripal na semana anterior a entrevista (%) – maio, junho e julho – Brasil

Legenda: % da população com sintomas de Síndrome Gripal

Fonte: PNADs COVID19 de maio, junho e julho.


A próxima figura também apresenta a proporção de pessoas que declararam sintomas de síndrome gripal em maio, junho e julho, na PNAD COVID19, mas tem como base apenas as pessoas que estavam trabalhando. Destaca-se que a proporção é consideravelmente maior entre os trabalhadores, chegando a mais de 50% em algumas regiões do país (em verde escuro), o que reforça o trabalho como local de disseminação de doenças contagiosas.

Proporção dos que declararam sintomas de síndrome gripal na semana anterior a entrevista e que trabalhavam (%) – maio, junho e julho – Brasil

Legenda: % dos trabalhadores com sintomas de Síndrome Gripal

Fonte: PNADs COVID19 de maio, junho e julho.


Iniciando com os diferenciais de sexo, tem se observado uma proporção maior de contaminados entre as mulheres, enquanto que os óbitos são maiores entre os homens. A próxima figura demonstra que a proporção daqueles que declararam sintomas de síndrome gripal é ainda maior entre as mulheres (cores roxas indicam que foi mais recorrente entre mulheres do que homens e quanto mais intenso, maior era o diferencial). Assim, nota-se uma redução da presença das mulheres conforme se agrava a situação, de um relato de sintomas de síndrome gripal para casos confirmados de COVID-19 e, principalmente, quando considerado os óbitos por COVID-19, de maior proporção entre os homens.

Razões de sexo (homens por mulher) das taxas dos que declararam sintomas de Síndrome Gripal, dos contaminados pela COVID-19 e dos óbitos suspeitos e confirmados por COVID-19 – Brasil

Legenda: Razões de sexo das taxas (valores abaixo de 1 = mais mulheres do que homens; acima de 1 = mais homens do que mulheres)

Fonte: PNADs COVID19 de maio, junho e julho; Notificações de Síndrome Gripal e Registro Civil (dados coletados até o dia 14 de agosto).


Nota-se pela próxima figura, de modo geral, que é a partir da faixa etária dos 20 aos 29 anos que inicia-se o aumento da razão de sexo dos óbitos, ou seja, conforme se avança na idade maior é o número de óbitos masculinos por femininos (as oscilações abaixo dessa faixa etária podem ser atribuídas a baixa numerosidade, dado a pouca mortalidade da doença entre as crianças e jovens). Nas faixas etárias mais velhas se observa uma queda nas razões de sexo, no entanto as mesmas ainda ficam em torno de 1,5 na faixa dos 80 anos e mais.

Algumas das explicações levantadas para a maior letalidade da doença entre os homens estão relacionadas a fatores sociais e comportamentais de gênero, maior incidência de comorbidades entre os homens e fatores genéticos. Destaca-se a maior prevalência de hipertensão, doença cardiovascular, doença pulmonar e menos lavagem das mãos entre os homens e também maior consumo de álcool e fumo, por exemplo, que são mais associados a comportamentos masculinos (BHOPAL; BHOPAL, 2020; CHEN et al, 2020; GUILMOTO, 2020; GOLDSTEINA; LEE, 2020; KRIEGER; CHEN; WATERMAN, 2020; THE LANCET, 2020; WHO, 2020).

Razão Homem/Mulheres das taxas dos que declararam sintomas de síndrome gripal, das taxas de infecção e das taxas de mortalidade por COVID-19, por faixa etária – Grandes Regiões e Brasil

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Fonte: Elaborado a partir das PNADs COVID19 de maio, junho e julho, das Notificações de Síndrome Gripal do e-SUS NOTIFICA e da Central de Informações do Registro Civil - CRC Nacional, ambos até o dia 14 de agosto.


Quando voltamos a análise para os trabalhadores, verifica-se que a maior prevalência de mulheres declarando sintomas de síndrome gripal provavelmente tem relação com as atividades que desempenham no mercado de trabalho, se concentrando muito mais em atividades de alto risco de contágio (atividades da saúde), o que resulta também, em uma maior testagem que pode ter relação com o maior número de casos confirmados de COVID-19.

Proporção de pessoas por sexo e risco de contágio da atividade – Brasil – maio, junho e julho de 2020

Fonte: Elaborado a partir das PNADs COVID19 de maio, junho e julho.

Proporção de pessoas com sintomas de síndrome respiratória, por sexo e risco de contágio da atividade, Brasil, maio, junho e julho de 2020

Fonte: Elaborado a partir das PNADs COVID19 de maio, junho e julho.

A diferença no caso da raça/cor não foi tão expressiva como no caso do sexo, o que pode ser visualizado abaixo, no gráfico de proporção de pessoas por cor e risco de contágio da atividade e no gráfico da proporção desses trabalhadores com sintomas de síndrome gripal.

Estudos mostram, por exemplo, que a exposição aos riscos de contaminação está associada à estrutura de relações de trabalho entre categorias profissionais. No caso dos profissionais de saúde, predominam médicos e enfermeiros brancos, enquanto que técnicos e auxiliares são em grande medida negros, denotando que políticas de inclusão ainda não surtiram o efeito esperado (LOMBARDI; CAMPOS, 2018; PORTES; DALLEGRAVE, 2020). Esse fato pode explicar a menor presença dos negros em atividades com alto risco de contágio.

No entanto, quando considerado a proporção dos que declararam sintomas de síndrome gripal, para as três categoriais de atividade, ao longo do período analisado, mais negros do que brancos declararam ter tido sintomas de síndrome gripal.

Proporção de pessoas por cor e risco de contágio da atividade – Brasil – maio, junho e julho de 2020

Fonte: Elaborado a partir das PNADs COVID19 de maio, junho e julho.

Proporção de pessoas com sintomas de síndrome gripal, por cor e risco de contágio da atividade, Brasil, maio, junho e julho de 2020

Fonte: Elaborado a partir das PNADs COVID19 de maio, junho e julho.

Outra forma possível de verificar os diferenciais por cor foi considerando os internados por COVID-19 (dado a falta de dados sobre essa informação entre os confirmados), o que pode ser verificado na sequência. As figuras reforçam a relação direta entre idade e gravidade da doença, mas também revelam diferenciais entre negros e brancos e entre as regiões do Brasil.

As regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste apresentam claro descolamento entre as curvas de internação de negros e brancos a partir da faixa dos 50 a 59 anos, com maior internação de negros. Enquanto que na região Sudeste as curvas são muito próximas em todas as faixas etárias e, na região Sul, observa-se o comportamento oposto, com maiores taxas de internações de brancos do que de negros a partir da faixa dos 30 aos 39 anos.

Taxa de internação dos infectados por COVID-19, por cor e faixa etária – Grandes Regiões e Brasil

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Fonte: Elaborado a partir de dados de internação da SRAG, distribuição da população por cor com base nas PNADs COVID19 e população de 2020 projetada pelo IBGE. *A escala varia entre os gráficos


Considerando as regiões do país, verifica-se um comportamento da taxa de letalidade entre os internados por cor e idade muito semelhante (figura abaixo), chegando a uma taxa de letalidade de 60% dos internados que estavam com 80 anos ou mais, tanto para negros como para brancos. Nota-se algumas oscilações nas faixas etárias mais jovens, o que pode ser reflexo dos poucos casos de internação.

Taxa de letalidade dos internados por COVID-19, por cor e faixa etária – Grandes Regiões e Brasil

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Fonte: Elaborado a partir de dados de internação da SRAG.


Os dados mostraram que, quanto maior o risco de contágio da atividade desempenhada no mercado de trabalho, maior foi a proporção de pessoas que declararam sintomas de síndrome gripal.

Considerando o sexo, verificaram-se maiores taxas dos que declararam sintomas de síndrome gripal entre as mulheres em todas as atividades e, também, maior prevalência de mulheres entre os infectados por COVID-19. Porém, os perfis de infecção por idade revelaram diferenças entre os sexos, com maiores taxas de infecções nas idades adultas entre as mulheres e, nas idades mais avançadas, entre os homens. Tais diferenciais, provavelmente, guardam relação com a grande concentração de mulheres – mais de 70% do total – dos trabalhadores nas atividades de alto risco, que são as de saúde humana e assistência social.

Cabe ressaltar que a maior mortalidade entre idosos e homens é uma característica observada na mortalidade de modo geral e que, nesse sentido, a letalidade por COVID-19 tem um comportamento semelhante. Algumas das hipóteses apontadas, nos estudos feitos até o momento para explicar a maior letalidade da doença entre os homens, estão relacionadas tanto a fatores sociais e comportamentais de gênero, fatores genéticos e maior prevalência de comorbidades que agravam o quadro da doença entre os homens.

A última característica analisada foi a cor. A distribuição por risco de contágio da atividade aponta para uma exposição um pouco maior para os brancos, no entanto, a proporção dos que declararam sintomas de síndrome gripal foi maior entre os negros. As taxas de internações e de letalidade dos internados revelaram situações diferentes entre as regiões do Brasil. Nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste houve maior internação por COVID-19 entre os negros, enquanto no Sudeste ela foi muito semelhante e, no Sul, foi maior entre os brancos. Já a letalidade dos internados foi maior entre os brancos na região Norte e Nordeste e, nas demais, foi maior entre os negros. Os resultados apontam a necessidade de considerar outras questões nas análises dos diferenciais entre cor, como os diferenciais socioeconômicos entre as regiões e entre negros e brancos.


Referências

BHOPAL, S. S.; BHOPAL, R. Sex differential in COVID-19 mortality varies markedly by age. The Lancet, 2020. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)31748-7.

CHEN, N.; ZHOU, M.; DONG, X.; QU, J.; GONG, F. HAN, Y.; et al. Epidemiological and clinical characteristics of 99 cases of 2019 novel coronavirus pneumonia in Wuhan, China: a descriptive study. The Lancet. v. 395, n. 10223, p. 507-513, 2020. doi: 10.1016/S0140-6736(20)30211-7. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0140673620302117.

GOLDSTEIN, J. R.; LEE, R. D. Demographic perspectives on the mortality of COVID-19 and other epidemics. Proceedings of the National Academy of Sciences, n. 117, v. 36, p. 22035-22041, set 2020; DOI: 10.1073/pnas.2006392117. https://www.nber.org/papers/w27043.

GUILMOTO, C. Z. Covid-19 death rates by age and sex and the resulting mortality vulnerability of countries and regions in the world. medRxiv, Cold Spring Harbor Laboratory Press, 2020. https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.05.17.20097410v1.

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IBGE. PNADs COVID-19. Disponíveis em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/investigacoes-experimentais/estatisticas-experimentais/27946-divulgacao-semanal-pnadcovid1?t=o-que-e&utm_source=covid19&utm_medium=hotsite&utm_campaign=covid_19. Acessado em: 25 ago. 2020.

KRIEGER, N.; CHEN, J. T.; WATERMAN, P. D. Excess mortality in men and women in Massachusetts during the COVID-19 pandemic. The Lancet, 2020. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)31055-2.

LANCET, THE. The gendered dimensions of COVID-19. The Lancet (London, England), v. 395, n. 10231, p. 1168, 2020. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7146664/.

LOMBARDI, M. R; CAMPOS, V. P. A enfermagem no Brasil e os contornos de gênero, raça/cor e classe social na formação do campo profissional. Revista da ABET, v. 17, n. 1, p. 28-46, 2018. https://periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/abet/article/view/41162.

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PORTES, V.; DALLEGRAVE, D. Cargos de Gestão em Saúde: a (in) visibilidade de Gênero, Raça e Profissão. Saúde em Redes, v. 6, n. 2, 2020. http://revista.redeunida.org.br/ojs/index.php/rede-unida/article/view/2531/0.

WHO et al. Gender and COVID-19: advocacy brief, 14 May 2020. [S.l.], 2020. https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/332080/WHO-2019-nCoV-Advocacy_brief-Gender-2020.1-eng.pdf.


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