Pandemia de COVID-19 e mercado de trabalho: percepções da população com base em postagens no Instagram

A pandemia de COVID-19 fez com que, em um curto espaço de tempo, uma parcela dos trabalhadores deixasse de exercer suas atividades, outros tiveram que se adaptar ao trabalho remoto e, inúmeras pessoas precisaram continuar suas atividades profissionais para que os serviços e produtos que são indispensáveis à população continuem disponíveis.

Todas essas mudanças refletiram na piora das condições laborais, gerando grande apreensão por parte dos brasileiros em relação a manutenção de emprego e a garantia de renda para a sobrevivência neste contexto pandêmico.

A instabilidade econômica causada/agravada pela pandemia é possivelmente um dos fatores que mais afeta diretamente a qualidade de vida, assim, saber o que as pessoas têm postado na rede social Instagram, sobre os efeitos negativos da pandemia no mercado de trabalho, fornece indícios sobre a percepção da população frente a vulnerabilidade econômica.

Os dados utilizados foram coletados do Instagram, que é uma das redes sociais mais utilizadas no mundo. Os principais dados coletados e analisados foram os dados textuais dos posts do Instagram entre 01/01/2020 e 13/09/2020.

A busca dos posts foi executada por meio de filtros por hashtags (#), que são utilizadas pelos usuários como forma de identificação do assunto da postagem. As hashtags foram escolhidas por indicarem prejuízos no mercado de trabalho relacionados, principalmente, a perda de postos de trabalho, são elas: #demissão, #demitida, #demitido, #desempregada, #desempregado, #desemprego, #falido e #reduçãodejornada.

Os posts coletados também foram identificados como estando, ou não, “relacionados” à pandemia. Caso a postagem tivesse uma das seguintes string – “coron”, “covid”, “quarent”, “homeoffice”, “pand”, “vírus” – era enquadrada como relacionada ao COVID-19. Na sequência são expostos os resultados principais, mas para ver o texto completo basta – Acessar aqui.

No período de 01 de janeiro até 13 de setembro de 2020 foram coletadas 90.787 postagens no Instagram relacionados a prejuízos no mercado de trabalho. As hashtags mais utilizadas foram a #desemprego, com mais de 48 mil posts coletados no período, #desempregado, com cerca de 25,5 mil e #demissão, com 9,6 mil postagens, enquanto as de menor postagem foram #reduçãodejornada (993 postagens), #falido (576) e #demitida (175).

A proporção das postagens relacionadas à pandemia ficou em torno dos 20%, com menor participação nos posts que utilizaram as hashtags #desempregado, #falido e #desempregada (na casa dos 10 a 20%), seguido das #demitida, demissão, desemprego e demitido (na casa dos 20 a 30%) e com maior participação naquelas que utilizaram #reduçãodejornada (51,8%).

Tabela 1 – Número de postagens, de curtidas e de comentários por hashtag

Hashtag Postagens Curtidas Comentários Postagens relacionadas à pandemia % de postagens relacionadas à pandemia
#demissão 9.683
1.078.717
61.848
2.418
25,0
#demitida 175
27.843
1.763
38
21,7
#demitido 1.331 1.820.932 39.966
335
25,2
#desemprego 48.054
4.633.345
240.258
12.046
25,1
#desempregada 4.527 474.148
20.647
681
15,0
#desempregado 25.508 1.899.005 119.138
2.596
10,2
#falido 576
44.511 3.372
68
11,8
#reduçãodejornada 933
29.791
1.793
483
51,8
Total 90.787 10.008.292 488.785 18.665 20,6

Fonte: Elaborado com base nos dados do Instagram.

O Gráfico abaixo ilustra a evolução da frequência de todas as postagens que utilizaram alguma das hashtags escolhidas e que estavam relacionadas a pandemia (escala no eixo esquerdo) e a evolução da média móvel dos casos confirmados de COVID-19 no Brasil (escala no eixo direito). Observa-se que a média móvel dos casos de COVID-19 seguiu crescendo até o mês de julho, enquanto que as postagens relacionadas à pandemia, que começaram a crescer substancialmente na metade de março, já apresentaram tendência de queda entre maio e junho, indicando uma redução do interesse dos usuários pelo tema conforme avançavam-se os meses de pandemia.

Também verifica-se alguns eventos que influenciaram o pico das postagens, como tanto a demissão de Henrique Mandetta, como posteriormente a saída de Nelson Teich do Ministério da Saúde e também a divulgação de dados que mostravam o aumento do desemprego no Brasil.

Gráfico 1 – Casos confirmados de COVID-19 e frequência de postagens das hashtags de vulnerabilidade econômica que estavam relacionadas à pandemia

Fonte: Elaboração própria com base nos dados coletados no Instagram e do Brasil.io.

Analisando os textos das postagens que estavam relacionadas a pandemia, verificou-se que houve uma presença maior de termos relacionados à pandemia nas postagens que continham as seguintes hashtags:  #demissão, #demitido e #desemprego. Com relação a temas que indicam preocupação com a perda de emprego e de renda, destacam-se os termos redução de jornada, estado de calamidade, taxa de desemprego e auxílio emergencial.

Por fim, a análise de tópicos, realizada sobre o conjunto das postagens que foram consideradas como relacionadas à pandemia, resultou em três tópicos principais de temas abordados pelos usuários.

O primeiro foi o mais frequente e pode ser resumido como uma preocupação do efeito da pandemia no mercado de trabalho (Tópico 1 da Figura 1). Temas como redução de jornada, suspensão de contrato, auxílio emergencial, salário e emprego foram os mais citados, indicando sua relação com as medidas adotadas pelo governo com o intuito de reduzir os impactos da pandemia de COVID-19 nos empregos.

O segundo tópico também relaciona a pandemia com o mercado de trabalho, mas com maior conexão com o lado das empresas. Como termos frequentes tem-se crise, saúde, empresa(s) e emprego.

O último tópico aborda o tema de como ganhar dinheiro. As palavras mais frequentes indicam que as hashtags escolhidas também são utilizadas para atrair pessoas que possivelmente estão procurando trabalho, com isso cursos e maneiras de ganhar dinheiro em casa, por meio da internet, são promovidas.

Figura 1 – Nuvens de palavra da Análise de Tópicos das postagens relacionadas à pandemia

Fonte: Elaboração própria com base nos dados do Instagram.

Os resultados mostraram que, de modo geral, houve maior proporção de postagens que estavam relacionadas com a pandemia de COVID-19 nos meses de abril e maio, o que indica maior interação dos usuários ao tema no período mais inicial, com queda do interesse conforme os meses passavam.

A verificação das palavras mais frequentes e a Análise de Tópicos confirmou que a preocupação com a vulnerabilidade econômica estava presente nas postagens que utilizavam hashtags associadas a prejuízo no mercado de trabalho. Dois dos três tópicos principais abordados nas postagens relacionadas à pandemia traziam assuntos relacionados ao emprego, renda, saúde e crise e também abordavam as medidas governamentais adotadas para tentar reduzir o impacto da pandemia no mercado de trabalho, como auxílio emergencial e redução de jornada de trabalho.


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